Acabei de voltar do show do Chico. Sinto-me anestesiada de todo o mal do mundo, por pelo menos esta noite. Sabe, eu não sou muito fã de ser fã de alguém. Nem na adolescência. Conto em menos de uma mão os artistas que colecionei fotos, artigos e acessórios. Depois de adulta (é, agora eu sou adulta, é mole?), não me considerava fã de ninguém. Porém, a vida foi me mostrando que estava enganada. As pastas palpáveis se transformaram em pastas on line. Encontrei várias delas no meu computador com fotos e mais fotos em JPEG de Tom Jobim, Vinicius e, claro, Chico Buarque. Pilhas de CDs? Mais que isso. Pastas pesadas com centenas de músicas em MP3 desses caras. É, acho que isso já era o suficiente pra perceber que sim, eu tinha ídolos.
Acabei de voltar do show do Chico. O segundo que fui na vida. Foi duro encarar de novo aquele homem ali, na minha frente. Um cara que conheço um pouco da vida, alguns tímidos semblantes, muito das músicas e que, de alguma forma, faz parte da minha curta vida. Sim, pois ele estava presente em inúmeras histórias de amor pessoais, das quais foi meu intérprete preferido para tantos sentimentos: reconfortantes palavras, vingança interna e vontade de dar a volta por cima, – de um jeito que só ele sabe expressar – amor incondicional, desejo de ter, ver, ser, paixão pura, platônica, em paz, saudade doída, ferida, teimosa. Ele podia compartilhar comigo cada fase importante de qualquer relação. Ele sabia botar pra fora os pensamentos mais obscuros de alguém. Ele sabia o que acontecia em qualquer coração. Isto sem contar nas inebriantes apresentações a personagens únicos, com histórias tocantes, que dava vontade de conhecer, mesmo sabendo que poderiam ser somente fruto de sua mente, que mente tão bem!
Acabei de voltar do show do Chico. – já falei isso hoje? – Não sei ao certo, mas me arrepiei umas três vezes e me deu vontade de chorar umas quatro. Foi aí que me dei conta: é, realmente eu sou sua fã. Vê-lo logo ali, me fez pensar que Chico talvez seja o único ídolo que tenho vivo. Preciso aproveitá-lo enquanto posso! Eu tentava piscar o mínimo possível, mas os olhos ardiam. Eu criei uma boa cistite, porque não queria ir ao banheiro por nada, só pra não perder nem um minutinho sequer… Sem contar as vozes em uníssono da plateia, que completavam o gostinho de “noite inesquecível” que tive hoje.
Sei que tem muita menina nova que se diz ser fã e não sabe nada. Conhece somente as músicas que tocam nas rádios e não se intera sobre a história de vida do artista. Diz que é fã só porque acha o Chico um coroa interessante e porque vai aparentar ter uma certa cultura diante de tanta gente fútil nesse Brasil. Concordo, mas, não generalizem. Sei que homens idiotas com um projeto de cérebro tiram a camisa em eventos e festas e nem por isso acho que todos são assim. Todos os homens idiotas fazem isso, mas nem todos que fazem isso são homens idiotas. Há uma graaande diferença. Interseção, lembram-se?
Tenho um pai músico e cresci ouvindo Chico Buarque, Elis Regina e Bossa Nova, em geral. Gosto de muita música ruim e não gosto de muita música boa, mas, por Deus, se tem uma coisa que sei é identificar qualidade musical, seja melódica, rítmica, ou qualquer coisa que a música proporciona. Por mais que eu não quisesse, eu absorvi isso durante toda a minha vida.
Pra terminar, não importa o que falem dele. Aliás, normalmente quem fala, pouco sabe sobre e isso me conforta e me irrita ao mesmo tempo. É preciso respeito, acima de tudo, por um cara que sim, pode não ter voz alguma – canta melhor que você, caro leitor, mas não tem voz alguma - mas que escreve, interpreta, pensa, rima, cria, pinta e borda com a língua portuguesa de forma tão fascinante. Não troco o tom mais agudo da Mariah Carey por uma rima de proparoxítonas dele. E digo mais, o cara é isso tudo e ainda é simples. Fazer o quê, né?